quinta-feira, 18 de novembro de 2010

T' "Ulisses"

Demos o título de T' "Ulisses" a este pequeno texto, porque se trata de um excerto super divertido que lemos hoje, durante a aula de Estudo Acompanhado, sob a orientação da Professora de Língua Portuguesa, na obra "Ulisses", de Maria Alberta Menéres. Trata-se de uma obra que faz parte do Plano Nacional de Leitura e que estamos a gostar muito de descobrir. Deixamos aqui transcrito o bocadinho que nos deliciou hoje:

"Ora Ulisses nunca dizia quem era, nunca gostava de dizer o seu nome, e principalmente numa ocasião daquelas, em que com toda a razão se via perdido tão desgraçadamente... Que ao menos nunca ninguém soubesse o triste fim que Ulisses, o herói, tinha tido!
Então ali de repente tentou lembrar-se de um nome
qualquer para enganar o ciclope, um nome
qualquer
um nome qualquer
um nome qualquer um nome qualquer
um nome qualquer um nome qualquer um nome qualquer um nome
qualquer-mas a aflição era tão grande que não se lembrava de nenhum!
Polifeno começava a ficar irritado, a ficar furioso:
-Então não sabes como te chamas? Como te chamas?
COMO TE CHAMAS? COMO TE CHAMAS???
Ulisses, de cabeça perdida, só lhe soube responder: -Como me chamo? Como me chamo? Sei lá. Olha, espera, chamo-me... Ninguém.
POLIFEMO-Ninguém?! Que diabo de nome te deram, pigmeu! Por isso tu não o querias dizer. E tinhas razão, lá isso tinhas1 olha que ideia, Ninguém...
E então de repente a cabeça caiu-lhe sobre o peito e adormeceu profundamente.
Ulisses e os companheiros reuniram-se logo no meio
da caverna e combinaram o que haviam de fazer. o pedregulho que tapava a entrada era muito pesado e não conseguiram sequer movê-lo um centímetro. Se matassem o gigante, acabariam por ficar ali fechados para sempre. Mas se conseguissem que fosse o próprio gigante a afastar o pedregulho... E como?
Bom, primeiro resolveram retemperar as forças perdidas após tantos sustos e tanta aflição. Acabaram de assar o veado e comeram-no, beberam o leite das ovelhas e das cabras e descansaram um pouco. Depois pegaram num tronco de árvore fina que ali encontraram e afiaram-no muito bem na ponta. Nas cinzas da fo gueira tornaram essa ponta incandescente. E então, todos à uma, apontando a ponta ardente na direcção do único olho do gigante adormecido, exclamaram UM ...
DOIS ... TRES! E espetaram o tronco no olho mesmo
a meio da testa!
o ciclope acordou aos urros, e mais furioso ficou quando percebeu que estava cego! Dava pulos tão grandes que batia com a cabeça no tecto
batia com a cabeça nas paredes
nas paredes nas paredes
batia com a cabeça no chão.
os ciclopes das outras ilhas acordaram estremunhados e disseram uns para os outros:
-É o Polifemo que está a chamar por nós, e está a pedir socorro. Temos de ir lá ver o que é, temos de lhe acudir!
E levantaram-se todos, e deitaram-se todos ao mar, e chegaram todos à porta da gruta onde morava o Polifemo. Chegaram escorrendo água e frio e ansiedade.
Disse um:-Metemos o pedregulho dentro! Responderam os outros:-Não, não. Olha que ele pode estar com um dos seus ataques de mau gênio e nós é que sofremos. Vamos perguntar o que lhe está acontecendo, e depois veremos.
E assim fizeram. A conversa que se seguiu foi esta: -ó Polifemo, o que tens? -Ai meus irmãos, acudam-me, acudam-me!
- O que foi, Polifemo?
-Ai meus irmãos, acudam! Ninguém quer matar-me...
-Pois não, Polifemo, ninguém te quer matar. -Não é isso, seus palermas! O que eu estou a dizer
é que Ninguém está aqui e Ninguém quer matar-me!
-Pois é, rapaz! É o que nós estamos a perceber muito bem: ninguém está aqui e ninguém te quer matar...
-Não é isso, seus idiotas!...
E não havia maneira de se entenderem uns com os outros.
Quando os ciclopes perceberam que o Polifemo estava já muito zangado, dizendo sempre aquelas mesmas coisas que eles já tinham ouvido, escorrendo ainda água e frio se foram retirando para as suas cavernas das outras ilhas, comentando entre si: «Ora esta! Que ideia, no meio da noite cerrada acordar-nos assim para nos dizer que ninguém estava lá e ninguém o queria matar... Coitado! Com certeza estava com alguma dor de dentes!»